07/06/2016

Com o pouco que tenho para dar

Sai do trabalho decidida a fazer algo mais. Conduzi até à praia para pensar e depois segui até Lisboa onde encontrei o Sr. Manuel no sitio do costume. Metemos três dedos de conversa e umas boas gargalhadas antes de lhe lançar a bomba.
Olhei-o nos olhos e disse que hoje iríamos partilhar o nosso jantar com o máximo de pessoas que encontrássemos pelas ruas de Lisboa. Ficou a olhar para mim como se eu fosse doida. Ele já sabia como eu era, sempre com a cabeça no mundo dos sonhos e pouco na realidade. Quando percebeu que eu estava a falar a sério, apenas me disse que por muito que quisesse não podia ajudar toda a gente.

“Eu sei, mas posso tentar, e hoje vamos tentar os dois.”

Levantei-me, puxando-o a ele logo de seguida. Fomos até ao supermercado mais próximo. Começamos a pegar naquilo que precisávamos. Nunca me tinha sentido tão observada como naquele momento. Olhavam-nos como se fossemos uma doença, algo que estava no sitio errado. Não percebo qual é o problema das pessoas, como têm coragem de julgar sem antes conhecerem, sem antes darem uma oportunidade da pessoa mostrar como é realmente, para mostrar que existe uma pessoa como outra qualquer naquele corpo. É um mundo de aparências e nenhuma daquelas pessoas queria ter ao seu lado um mendigo, uma pessoa mal vestida, alguém que tem de suplicar para sobreviver.
Agarrei-o no braço e comecei a sorrir. Disse o mais baixo que pude só para ele ouvir “tenho orgulho em te ter ao meu lado”.
Numa rapidez surpreendente acabámos as compras e fizemos as sandes como se o mundo dependesse disso. Não tínhamos pressa, mas por algum motivo, estávamos ambos ansiosos por acabar.

Foi tempo de começar a percorrer as ruas de Lisboa, de um lado para o outro, partilhando historias e o jantar com quem fossemos encontrando. Ter o Sr. Manuel ao meu lado ajudou bastante. Não só porque me fez sentir segura, como conseguia chegar às pessoas que olhavam para mim com alguma desconfiança, que não me deixavam aproximar. O Sr. Manuel diz que quando se está à muito tempo nesta vida, passa-se por tanta coisa e vê-se tanta coisa que se começa a desconfiar de tudo o que é oferecido sem ser pedido nada em troca.
O Sr. Manuel mostrou-me onde “viviam” tantas outras pessoas, sabia onde procurar, e o que encontrar em cada rua, em cada ruela, em cada beco. Foi me mostrando quais tinham sido as suas “casas” e de quais sentia saudades. Ele conseguia fazer as pessoas confiarem apenas com meia dúzia de palavras.

Distribuímos tudo, e quanto mais houvesse, mais havia a quem dar. Estava exausta, e não era a única. Ouvia a respiração do Sr. Manuel ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Caminhámos devagar até nos voltarmos a sentar no “nosso lugar”. Rapidamente e sem me aperceber do que iria acontecer, recebi um abraço com tanta força que parecia que ia sufocar. Quando o Sr. Manuel me deixou voltar a respirar novamente reparei na sua cara. Nunca tinha visto sequer uma lágrima naquele rosto, nem mesmo quando ele falava da mulher e o filho, mas naquela noite, naquele momento, lá estava ela, a escorrer-lhe pela cara. “Fizeste o meu mundo tornar-se gigante hoje, puder ajudar outras pessoas, já à tanto tempo que não tinha oportunidade de o fazer, nem a mim se consigo ajudar. Soube tão bem”.
Foi assim que nos despedimos. Com lágrimas nos olhos e uma sensação incrível de missão cumprida. Hoje o sorriso é dos dois, mas mais do que isso, hoje o sorriso é todas as pessoas que me deixaram entrar na sua vida, nem que fosse por 5 minutos e um pedaço de pão.


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