27/06/2016

25.06.2016 - hoje levei-te ao teatro


Hoje levei-te ao teatro. Perdeste a conta da última vez que tiveste essa oportunidade.
Hoje quis mostrar-te mais, dar-te mais. Hoje quis mostrar que ainda existem pessoas que querem saber, pessoas grandes, pessoas com tanto para dar.
Observei atentamente enquanto te perdias com tudo o que te rodeava. Amei ver-te entrar por aquela porta como se fosse algo que fazes diariamente, como se fosse esse o teu mundo. Parecia que tinha viajado para outro mundo contigo, fazias as coisas parecerem tão fáceis para quem olhava. Toda aquela gente estava lá por ti, mesmo que não o soubessem, mesmo que tu ainda não o soubesses, ainda!! (estava ansiosa para ver a tua cara quando percebesses o porque de termos ido ao teatro naquele dia, do nada)
Estavas tão atento, a ouvir tudo e a guardar todas as imagens e falas na tua cabeça. Até refilaste comigo por te ter falado durante a atuação. Não consegui deixar de rir baixinho, tudo em ti era peculiar e tão simples. Tudo era importante, querias ver tudo, memorizar tudo.
Não irei esquecer tudo o que me fizeste viver, o quanto me mudaste, o quanto conseguiste iluminar aquilo que à muito se encontrava obscuro, as gargalhadas, as conversas sérias, os silêncios, os gritos de dor, as súplicas para algo melhor, os sorrisos, e estes foram tantos, a fé, estes momentos tão simples mas ao mesmo tempo tão importantes.
Amei tudo desde a viagem de ida até aqueles últimos 5 segundos em que te acenei o adeus dentro do carro quando já estava na volta para casa.
O pior foi não te puder levar para uma casa, não conseguir dar-te um teto. Ai se eu pudesse!! Trazia-te comigo. Fazia com que sentisses novamente o aconchego dos cobertores, o conforto de um colchão, a companhia de uma família, a comida quente acabada de sair do fogão. Coisas tão simples, mas que nós iriamos apreciar como se fossem o melhor que a vida tem para oferecer. Apresentava-te aos meus pais, e aposto que eles iam ter uma inveja saudável de ti, eles ficariam a saber que és tu que consome o meu tempo, que és a causa de um pelo menos um dia por semana me deitar tarde, que todas as noites com insónias passo-as a pensar em mil e uma maneiras de fazer mais e dar mais de mim, a ti e a tantos como tu. Tempo esse que eles não têm a oportunidade de ter. Mas sei também que eles iam adorar-te, que iam gostar de cada pormenor teu como eu gosto, que iam ver como és um “novo” pai para mim, como me tratas como se realmente fosse tua filha, como lutas sem desistir todos os dias, a toda a hora, como tudo é uma aventura para ti e como também queres o melhor para mim. Têm isso em comum, tu e os meus pais. Saberiam o quanto me mudaste, quanto fizeste por mim sem nunca pedir nada em troca. Como és especial.

Cresci com duas mães, e desde que te conheci tenho a oportunidade de partilhar a minha vida com dois pais. Não há nada que possa superar isso.

07/06/2016

Com o pouco que tenho para dar

Sai do trabalho decidida a fazer algo mais. Conduzi até à praia para pensar e depois segui até Lisboa onde encontrei o Sr. Manuel no sitio do costume. Metemos três dedos de conversa e umas boas gargalhadas antes de lhe lançar a bomba.
Olhei-o nos olhos e disse que hoje iríamos partilhar o nosso jantar com o máximo de pessoas que encontrássemos pelas ruas de Lisboa. Ficou a olhar para mim como se eu fosse doida. Ele já sabia como eu era, sempre com a cabeça no mundo dos sonhos e pouco na realidade. Quando percebeu que eu estava a falar a sério, apenas me disse que por muito que quisesse não podia ajudar toda a gente.

“Eu sei, mas posso tentar, e hoje vamos tentar os dois.”

Levantei-me, puxando-o a ele logo de seguida. Fomos até ao supermercado mais próximo. Começamos a pegar naquilo que precisávamos. Nunca me tinha sentido tão observada como naquele momento. Olhavam-nos como se fossemos uma doença, algo que estava no sitio errado. Não percebo qual é o problema das pessoas, como têm coragem de julgar sem antes conhecerem, sem antes darem uma oportunidade da pessoa mostrar como é realmente, para mostrar que existe uma pessoa como outra qualquer naquele corpo. É um mundo de aparências e nenhuma daquelas pessoas queria ter ao seu lado um mendigo, uma pessoa mal vestida, alguém que tem de suplicar para sobreviver.
Agarrei-o no braço e comecei a sorrir. Disse o mais baixo que pude só para ele ouvir “tenho orgulho em te ter ao meu lado”.
Numa rapidez surpreendente acabámos as compras e fizemos as sandes como se o mundo dependesse disso. Não tínhamos pressa, mas por algum motivo, estávamos ambos ansiosos por acabar.

Foi tempo de começar a percorrer as ruas de Lisboa, de um lado para o outro, partilhando historias e o jantar com quem fossemos encontrando. Ter o Sr. Manuel ao meu lado ajudou bastante. Não só porque me fez sentir segura, como conseguia chegar às pessoas que olhavam para mim com alguma desconfiança, que não me deixavam aproximar. O Sr. Manuel diz que quando se está à muito tempo nesta vida, passa-se por tanta coisa e vê-se tanta coisa que se começa a desconfiar de tudo o que é oferecido sem ser pedido nada em troca.
O Sr. Manuel mostrou-me onde “viviam” tantas outras pessoas, sabia onde procurar, e o que encontrar em cada rua, em cada ruela, em cada beco. Foi me mostrando quais tinham sido as suas “casas” e de quais sentia saudades. Ele conseguia fazer as pessoas confiarem apenas com meia dúzia de palavras.

Distribuímos tudo, e quanto mais houvesse, mais havia a quem dar. Estava exausta, e não era a única. Ouvia a respiração do Sr. Manuel ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Caminhámos devagar até nos voltarmos a sentar no “nosso lugar”. Rapidamente e sem me aperceber do que iria acontecer, recebi um abraço com tanta força que parecia que ia sufocar. Quando o Sr. Manuel me deixou voltar a respirar novamente reparei na sua cara. Nunca tinha visto sequer uma lágrima naquele rosto, nem mesmo quando ele falava da mulher e o filho, mas naquela noite, naquele momento, lá estava ela, a escorrer-lhe pela cara. “Fizeste o meu mundo tornar-se gigante hoje, puder ajudar outras pessoas, já à tanto tempo que não tinha oportunidade de o fazer, nem a mim se consigo ajudar. Soube tão bem”.
Foi assim que nos despedimos. Com lágrimas nos olhos e uma sensação incrível de missão cumprida. Hoje o sorriso é dos dois, mas mais do que isso, hoje o sorriso é todas as pessoas que me deixaram entrar na sua vida, nem que fosse por 5 minutos e um pedaço de pão.


03/06/2016

Nunca te prometi o mundo

Nunca te prometi o mundo, porque por muito que o quisesse dar não conseguia. Apenas te prometi o meu mundo.

Posso já dizer que não é um mundo cor-de-rosa, não é como nos filmes onde existem sempre finais felizes. Umas vezes o único final não é o queríamos. É um mundo que te testa constantemente, onde aprendi a lutar três vezes mais do que no mundo normal. Nunca te prometi um mundo sem problemas, apenas prometi estar sempre a lutar ao teu lado nas complicações. Um mundo que me fez assim.

Não vou acordar todos os dias de bom humor, mas irei sorrir cada vez que te veja. Não irei querer tocar-te todos os dias mas irei sentir o teu toque como se fosse sempre pela primeira vez, aquela sensação de bem-estar, de segurança, aquele toque especial, o desejo, a paixão.

Nunca te prometi que estarás sempre no topo das minhas prioridades. Haverá dias em que os problemas, o trabalho, e até aquele simples grão de areia no meio da praia se irão sobrepor a ti, haverá dias que só vou querer gritar e ficar no meu canto. Dias que irei chorar sem motivo, que não irei confiar ou partilhar, dias que irá parecer que não te mereço, que não me importo. Prometi sim que haverá também dias em que te irei confidenciar tudo o que me tornou quem sou hoje, tudo o que o meu mundo testou em mim, tudo o que odeio, tudo o que adoro, todos os sonhos e todos os pesadelos, em que serás o meu porto seguro, aquele que me mantém sã, aquela única pessoa que me conseguirá arrancar um sorriso quando só existirem lágrimas. Dias em que o meu único objetivo será ver-te feliz, fazer-te feliz, por um segundo, um minuto, uma hora, um ano…

Nunca te prometi o sucesso, mas prometi que irei confiar em ti até o alcançares, que iremos cair e levar-nos as vezes que forem precisas para lá chegar, que TE irei levantar as vezes que forem precisas para te ver alcançar o inalcançável, para ver quem um dia não acreditou morrer de inveja do que atingiste.

Conheço o meu mundo melhor do que ninguém, e muitas vezes até eu o trocaria por um outro mundo qualquer, um mundo de um outro alguém, com outras histórias, com outras marcas, com tudo novo. Nunca suplicaria para alguém o aceitar como seu sem antes ver tudo o que tem a perder, mas imploro para que se não o consegues aguentar, então não o agarres, pois é tudo o que tenho para dar, tudo o que sou e só por ele já custa.


Prometi dar-te o meu mundo, mas mais do que isso, prometi acrescentar o teu mundo ao meu e criar um mundo nosso.