Hoje levei-te ao teatro. Perdeste a conta da última vez que
tiveste essa oportunidade.
Hoje quis mostrar-te mais, dar-te mais. Hoje quis mostrar
que ainda existem pessoas que querem saber, pessoas grandes, pessoas com tanto
para dar.
Observei atentamente enquanto te perdias com tudo o que te
rodeava. Amei ver-te entrar por aquela porta como se fosse algo que fazes
diariamente, como se fosse esse o teu mundo. Parecia que tinha viajado para
outro mundo contigo, fazias as coisas parecerem tão fáceis para quem olhava.
Toda aquela gente estava lá por ti, mesmo que não o soubessem, mesmo que tu
ainda não o soubesses, ainda!! (estava ansiosa para ver a tua cara quando
percebesses o porque de termos ido ao teatro naquele dia, do nada)
Estavas tão atento, a ouvir tudo e a guardar todas as
imagens e falas na tua cabeça. Até refilaste comigo por te ter falado durante a
atuação. Não consegui deixar de rir baixinho, tudo em ti era peculiar e tão
simples. Tudo era importante, querias ver tudo, memorizar tudo.
Não irei esquecer tudo o que me fizeste viver, o quanto me
mudaste, o quanto conseguiste iluminar aquilo que à muito se encontrava
obscuro, as gargalhadas, as conversas sérias, os silêncios, os gritos de dor,
as súplicas para algo melhor, os sorrisos, e estes foram tantos, a fé, estes
momentos tão simples mas ao mesmo tempo tão importantes.
Amei tudo desde a viagem de ida até aqueles últimos 5
segundos em que te acenei o adeus dentro do carro quando já estava na volta
para casa.
O pior foi não te puder levar para uma casa, não conseguir dar-te
um teto. Ai se eu pudesse!! Trazia-te comigo. Fazia com que sentisses novamente
o aconchego dos cobertores, o conforto de um colchão, a companhia de uma
família, a comida quente acabada de sair do fogão. Coisas tão simples, mas que
nós iriamos apreciar como se fossem o melhor que a vida tem para oferecer.
Apresentava-te aos meus pais, e aposto que eles iam ter uma inveja saudável de
ti, eles ficariam a saber que és tu que consome o meu tempo, que és a causa de
um pelo menos um dia por semana me deitar tarde, que todas as noites com
insónias passo-as a pensar em mil e uma maneiras de fazer mais e dar mais de
mim, a ti e a tantos como tu. Tempo esse que eles não têm a oportunidade de
ter. Mas sei também que eles iam adorar-te, que iam gostar de cada pormenor teu
como eu gosto, que iam ver como és um “novo” pai para mim, como me tratas como
se realmente fosse tua filha, como lutas sem desistir todos os dias, a toda a
hora, como tudo é uma aventura para ti e como também queres o melhor para mim.
Têm isso em comum, tu e os meus pais. Saberiam o quanto me mudaste, quanto
fizeste por mim sem nunca pedir nada em troca. Como és especial.
Cresci com duas mães, e desde que te conheci tenho a
oportunidade de partilhar a minha vida com dois pais. Não há nada que possa
superar isso.

