Por vezes as coisas aparecem nas nossas vidas sem
percebermos a importância delas.
Era apenas mais um terça-feira à noite, após um dia
cansativo de trabalho e aulas. Caminhava para o carro de cara trancada, como se
o mundo me estivesse a bater, a lamentar as situações da minha vida, aquela
pessoa, aquele problema, aquele trabalho, aquela situação, aquele sentimento.
De repente oiço alguém ao meu lado a dizer: “ não devia andar com essa cara na
rua, sorria pois está viva, e aposto que tem um sorriso maravilhoso para
mostrar”. Foi impossível não sorrir. Agradeci o lembrete, mas quando dei por
isso, o Sr. Já só conseguia olhar para a sandes que agarrava na minha mão para
enganar a fome. Não pediu nada, apenas ficou a olhar, até perceber que eu tinha
reparado. Aí, desviou o olhar rapidamente como se tivesse cometido um crime
pelo qual se tinha envergonhado e voltou para o seu canto à porta de um café.
Só ai vi, não era apenas alguém, era alguém que tinha como casa as ruas de
lisboa, alguém que se sentava agora no cartão do qual tinha improvisado a sua
cama e num canto protegido tinha todos os seus pertences.
Perguntei se já tinha jantado e a resposta que obtive foi
“Jantar deixou de ser uma refeição, passou a ser algo que depende das pessoas
que vejo passar.
Sentei-me junto dele. Tremi de medo, como se ele me pudesse
fazer mal, mas ao mesmo tempo com aquela certeza que ele não o faria e se o
fizesse eu não queria saber. Partilhei o meu jantar e ganhei nesse momento a
oportunidade de conhecer um homem espectacular. Já com os seus 50 anos, trabalhou
muito tempo numa fábrica, tinha tido uma mulher e um filho do qual falava cheio
de orgulho.
A partir desse dia, todas as terças-feiras, eu e o Sr.
Manuel sabíamos que tínhamos de guardar 5 minutos nas nossas agendas para
jantarmos, independentemente de quão apressados estivéssemos para outra coisa. Levava
duas sandes, uma para cada e ele lá me distraia de tudo com uma historia.
Falou-me de como era feliz, como tinha conhecido o amor da
sua vida aos 25 anos, os sonhos que tinha ao longo dos anos, os planos que
tinha traçado para a sua vida a dois. Falava como se fosse o mundo que
estivesse a seus pés e não o contrário.
Contou-me como há 7 anos perdeu a mulher e o filho de 5 anos
num estúpido acidente de carro, como perdeu o único emprego que teve, como foi
perdendo tudo, uma coisa de cada vez, a família, o carro, a casa, até perder
também a vontade de lutar. Como as ruas começaram a ser a sua casa e as pessoas
o seu novo sustento.
Ainda sinto a dor em cada palavra que ele dizia. Acho que
nunca tinha perdido o controlo tão rápido e à frente de um estranho como nessa
noite. Chorei até deixar de conseguir respirar, enquanto ele me confortava e
dizia que um dia tinha tido a vida perfeita e isso não trocava, mesmo que agora
tivesse que suplicar por um bocado de pão.
Na minha ultima noite de aulas, expliquei que já não tinha
mais planos por Lisboa e que por isso iria deixar de vir. Mas que faria questão
de vir de vez em quando nem que seja para saber como ele estava e ter o prazer
de partilhar o meu jantar com ele.
Ele sorriu e nunca me vou esquecer das palavras que disse:
“conquista o mundo e sê feliz, só tens de sorrir. Luta pelo que queres e um dia
vais ter a vida perfeita que eu um dia tive. Que nunca mais ninguém te veja com
a cara trancada na rua como eu tive de ver. Vive a vida que imagino todos os
dias para o meu filho”.
Tentei o máximo que consegui, mas as lágrimas começaram a
escorrer pela minha cara, mas com um sorriso respondi: “Hoje eu tenho este
sorriso por si e graças a si”. Nem mil jantares, nem tudo o que eu pudesse dar
iriam compensar tudo o que ele me fez sentir e como me ensinou a ter fé nas
pessoas. Podia ter sido apenas mais uma pessoa, mais um sem abrigo, mas foi sem
dúvida algo mais.
Ainda sei onde se deita o Sr. Manuel, partilharemos mais
vezes a hora de jantar e aqueles minutos de conversa fiada ou aqueles sermões
que me dava quando lhe contava alguma coisa e ele pensava que eu estava a ser
parva.
Sei que nem todos merecem ajuda, que por vezes por mais
que queiramos não podemos dar mais e ser mais. Mas quando pessoas assim nos
encontram, por muito ou pouco que possamos dar, um minuto da presença delas na
nossa vida irá compensar tudo.
Sem comentários:
Enviar um comentário