29/05/2016

Nunca é tarde para sorrir

Por vezes as coisas aparecem nas nossas vidas sem percebermos a importância delas.
Era apenas mais um terça-feira à noite, após um dia cansativo de trabalho e aulas. Caminhava para o carro de cara trancada, como se o mundo me estivesse a bater, a lamentar as situações da minha vida, aquela pessoa, aquele problema, aquele trabalho, aquela situação, aquele sentimento. De repente oiço alguém ao meu lado a dizer: “ não devia andar com essa cara na rua, sorria pois está viva, e aposto que tem um sorriso maravilhoso para mostrar”. Foi impossível não sorrir. Agradeci o lembrete, mas quando dei por isso, o Sr. Já só conseguia olhar para a sandes que agarrava na minha mão para enganar a fome. Não pediu nada, apenas ficou a olhar, até perceber que eu tinha reparado. Aí, desviou o olhar rapidamente como se tivesse cometido um crime pelo qual se tinha envergonhado e voltou para o seu canto à porta de um café. Só ai vi, não era apenas alguém, era alguém que tinha como casa as ruas de lisboa, alguém que se sentava agora no cartão do qual tinha improvisado a sua cama e num canto protegido tinha todos os seus pertences.
Perguntei se já tinha jantado e a resposta que obtive foi “Jantar deixou de ser uma refeição, passou a ser algo que depende das pessoas que vejo passar.
Sentei-me junto dele. Tremi de medo, como se ele me pudesse fazer mal, mas ao mesmo tempo com aquela certeza que ele não o faria e se o fizesse eu não queria saber. Partilhei o meu jantar e ganhei nesse momento a oportunidade de conhecer um homem espectacular. Já com os seus 50 anos, trabalhou muito tempo numa fábrica, tinha tido uma mulher e um filho do qual falava cheio de orgulho.
A partir desse dia, todas as terças-feiras, eu e o Sr. Manuel sabíamos que tínhamos de guardar 5 minutos nas nossas agendas para jantarmos, independentemente de quão apressados estivéssemos para outra coisa. Levava duas sandes, uma para cada e ele lá me distraia de tudo com uma historia.
Falou-me de como era feliz, como tinha conhecido o amor da sua vida aos 25 anos, os sonhos que tinha ao longo dos anos, os planos que tinha traçado para a sua vida a dois. Falava como se fosse o mundo que estivesse a seus pés e não o contrário.
Contou-me como há 7 anos perdeu a mulher e o filho de 5 anos num estúpido acidente de carro, como perdeu o único emprego que teve, como foi perdendo tudo, uma coisa de cada vez, a família, o carro, a casa, até perder também a vontade de lutar. Como as ruas começaram a ser a sua casa e as pessoas o seu novo sustento.
Ainda sinto a dor em cada palavra que ele dizia. Acho que nunca tinha perdido o controlo tão rápido e à frente de um estranho como nessa noite. Chorei até deixar de conseguir respirar, enquanto ele me confortava e dizia que um dia tinha tido a vida perfeita e isso não trocava, mesmo que agora tivesse que suplicar por um bocado de pão.
Na minha ultima noite de aulas, expliquei que já não tinha mais planos por Lisboa e que por isso iria deixar de vir. Mas que faria questão de vir de vez em quando nem que seja para saber como ele estava e ter o prazer de partilhar o meu jantar com ele.
Ele sorriu e nunca me vou esquecer das palavras que disse: “conquista o mundo e sê feliz, só tens de sorrir. Luta pelo que queres e um dia vais ter a vida perfeita que eu um dia tive. Que nunca mais ninguém te veja com a cara trancada na rua como eu tive de ver. Vive a vida que imagino todos os dias para o meu filho”.
Tentei o máximo que consegui, mas as lágrimas começaram a escorrer pela minha cara, mas com um sorriso respondi: “Hoje eu tenho este sorriso por si e graças a si”. Nem mil jantares, nem tudo o que eu pudesse dar iriam compensar tudo o que ele me fez sentir e como me ensinou a ter fé nas pessoas. Podia ter sido apenas mais uma pessoa, mais um sem abrigo, mas foi sem dúvida algo mais.
Ainda sei onde se deita o Sr. Manuel, partilharemos mais vezes a hora de jantar e aqueles minutos de conversa fiada ou aqueles sermões que me dava quando lhe contava alguma coisa e ele pensava que eu estava a ser parva.

Sei que nem todos merecem ajuda, que por vezes por mais que queiramos não podemos dar mais e ser mais. Mas quando pessoas assim nos encontram, por muito ou pouco que possamos dar, um minuto da presença delas na nossa vida irá compensar tudo.