Era mais um dia. Estava ansiosa para te contar todas as
novidades, todos os desgostos de amor, todos os problemas de trabalho, todas as
risadas com os amigos, todas as pequenas conquistas. Adoravas ouvir “as minhas
desavenças com a vida” como tu costumavas dizer. Estava ansiosa pelo nosso jantar.
Fui o caminho todo a tentar arranjar a melhor maneira para dizer cada pormenor.
Queria saber como estavas, por onde tinhas andado, o que Lisboa te tinha
oferecido, quais as ruas que tinhas conhecido, quais te tinham acolhido e quais
as ruas que não te queriam.
Apressei me com medo de chegar e tu já não estares. Mas
afinal, cheguei e não te encontrei. Sentei me no nosso lugar e esperei. Talvez estivesses
só atrasado. Possivelmente tinhas encontrado alguém pelo caminho e ficaste na
conversa fiada como é normal. Passou meia hora, achei estranho, mas quando se
tem uma vida imprevisível como a tua nada é certo e então decidi esperar mais
um bocado. Encostei-me no teu “canto” e fui criando a conversa que iríamos ter
na minha cabeça para me distrair. Confesso que a repeti mais vezes do que me
apercebi. Estava frio e comecei a pensar que talvez não estivesses bem
agasalhado e isso atormentou-me. Não tinha nada comigo para te ajudar, para a
próxima trago, pensei.
Passou uma hora e não via sinais de ti. Levantei me e
comecei a andar pelas ruas para te procurar. Dizias que às vezes sabia bem
mudar de rua, para veres novas pessoas. Talvez fosse isso. Percorri aquelas
ruas de uma ponta à outra 2 vezes não fosse tu chegares ao nosso local e não me
encontrares.
Já era tarde, pensei. Talvez hoje não apareças.
Pelo segundo dia não te vi. Apertou-me o coração. Sei que
estás bem, tens de estar bem. Possivelmente encontraste alguém que precisava de
ti como eu precisei um dia ou finalmente aceitaste a ajuda daqueles que te
ofereciam constantemente. Mas queria só ter a certeza. Voltei outra vez a
percorrer aquelas ruas sem te encontrar.
Bem me avisavas que um dia o dono do café te escorraçava da
porta dele se chegasse e lá estivesses a dormir. “Que mau aspeto está a dar ao
meu café, faça o favor de se levantar e ir para bem longe daqui, há pessoas a
tentar ganhar a vida” imitavas tu as barbaridades desse senhor. Fazias-me
sempre rir com essas imitações, mesmo sabendo que um dia ainda se
concretizavam.
Sábado de manhã, decidida fui ter ao café e perguntei se te
tinham visto por lá. Disseram me que não, que já não te viam à tanto tempo quanto
eu. O dono realmente pareceu feliz por teres desaparecido, embora aqueles
“clientes habituais”, que percebes logo que é uma rotina tomar o seu pequeno
almoço ali, genuinamente me pareceram tristes pela tua ausência. Aposto que lhes
animavas também o dia a eles com as tuas histórias e vivências, é assim que és,
não consegues não deixar a tua alegria por onde passas. Quando começas a falar,
não há ninguém que te cale, e aqueles que o podem fazer, não o querem fazer.
Por onde andas?! Nunca pensei que me fosse custar tanto não
te ver, não saber onde andas, como andas, se tens como sobreviver. Nunca pensei
que te tornasses tanto em tão pouco tempo.
Nunca mais te vi, nunca mais ouvi as tuas histórias. Sinto
falta delas muitas vezes (praticamente todos os dias), sinto falta dos nossos
jantares, sinto a falta da tua companhia. Queria apenas ter tido a oportunidade
para uma última conversa, para um último sorriso, para um último jantar, ou
apenas para um último e simples olhar para ti. Se ao menos tivesse feito mais,
se te tivesse dado um lugar seguro para viveres, algo certo.
Vou conhecendo outras pessoas todas as noites que faço a
minha volta. Pessoas, que com cada pormenor seu fazem o meu dia diferente.
Conversas e às vezes silêncios constrangedores de quem não quer dizer nada. Mas
nenhuma delas és tu, não te vejo e cada vez sinto mais falta disso.
Admito que ainda há dias que pego numa sandes, entro no
carro e conduzo até ao nosso sítio. Sento-me e imagino que lá estás, que é
apenas mais uma terça-feira como as outras. Imagino a tua vida, o teu dia.
Imagino toda a nossa conversa. Relembro as histórias e os conselhos. Sempre com
um sorriso, não vás tu aparecer de repente e ainda levo com um sermão como da
primeira vez. Chamam-me louca, olham-me de lado, mas nada disso interessa se me
fizer sentir mais perto de ti, se me fizer sentir bem. O que eles pensam, “o
que eles pensam não vale nada comparado com o que me faz bem”, sempre me
disseste tu.
Transformaste aquilo que era em algo que nunca pensei que
conseguisse ser.
Sempre me disseste que já tinhas tido o melhor que a vida te
podia dar e que por isso já nada te iria abalar. Que não era a viver na rua que
irias perder essas memórias, que te irias deixar cair ou desmoralizar, antes
pelo contrário, cada vez irias ter mais força e vontade de viver. Sei que
realmente pensas isso e por isso digo: “Que Lisboa te aproveite como eu aproveitei!!”.
Sei que ainda nos iremos voltar a encontrar, eu não desisto de ti, irei
procurar-te em cada volta que fizer, em cada pessoa com quem falar. Tu és a
minha inspiração, e se isso faz de mim uma pessoa fraca e sem objetivos
maiores, então que seja. Prefiro assim, do que nunca ter sido abordada por ti
pois sei que mesmo que me tirem tudo, tenho-te presente sempre nos meus
pensamentos. Isso vale mais do que alguma vez conseguirei descrever.
