"Ali
estava a tela, levantei o pincel e as cores a com que me pintei foram o preto e
branco, deixo que o mundo use em mim os magentas, os cyans e os amarelos que
ele quiser. E o mundo não hesita em fazer infusões de cores distorcer brancos e
esmorecer os pretos, mas ainda assim não me importo.
Lá
vem aquele toque de amarelo. Sim aquela cor feia que me contorna como falso e
inseguro. E o mundo volta de novo a molhar o pincel noutra cor e toca no cyan. Desta
vez o cyan é robusto e com ele trás a mensagem não és assim estás a tentar ser
o que não és.
Em
suave queda vêm gotículas de magenta que tocam o cyan e amarelo, criando
laranjas e roxos que gritam no limiar dos seus pigmentos: “ESTÀS ERRADO. NÃO
TENS RAZÂO”.
Num
acto de revolta escorrega a tela e as cores frescas misturam-se criando um castanho
que se torna cinzento, formando uma mancha que se apodera da essência do quadro.
Já não sou eu... Apenas um ele que
pintou o seu auto-retrato e não os contornos pretos e os brilhos brancos com
que me caracterizei.
A
todos Vocês que me trocaram as cores só tenho uma coisa a dizer: por mais tinta
que usem, por mais chuvas que apaguem, por mais fogos que queimem, eu continuo
a preto e branco e antes de pegarem num pincel pensem nas cores que já foram
usadas e não naquelas que querem usar porque não podem voltar atrás no tempo e
repintar o preto e o branco sobre o caos de um cinzento já criado"
Carlos Filipe