03/12/2013

História de Alguém

    "Aos 16 anos, ele aproximou-se sem ninguém se aperceber. Quando ninguém olhava, encostou-me à parede e sem me dar tempo de reagir tapou-me a boca com a sua mão grande e envelhecida, e olhou-me nos olhos. 
    Senti o seu olhar como se de uma chapada se tratasse, de tão ameaçador e sombrio. Devagar, começou a descer a sua outra mão, enquanto me pressionava cada vez mais contra a parede com o seu corpo rigido. Desceu devagar até chegar ao fundo do meu vestido, sem nunca parar de me tocar, e com uma calma impressionante começou a subir outra vez a mão, mas desta vez o meu vestido acompanhava-a. Após momentos de choque, de paralezia total, debatia-me com todas as minhas forças contra ele, mas parecia que nenhum efeito tinha, ele continuava ali e eu continuava impotente entre ele e a parede. A sua mão a subir, a tocar na minha pele, a sua respiração ofegante nos meus ouvidos, o seu olhar de posse e desejo desenfreado. Sinto cada centímetro que ele percorreu como se tivesse sido ontem, o seu cheiro, o seu olhar, o sentimento de nojo, de impotência e finalmente de desistência e conformidade...
    Mas, quando ele pensou que já nada ia tentar, aliviou a pressão em mim enquanto descia-a o fecho das calças e retirava o seu pénis teso, debati-me contra ele com tudo o que ainda me restava, e consegui finalmente ficar em liberdade.
    Corri, e nunca olhei para trás, com medo que ele pudesse estar lá e pudesse me voltar a dominar. Entrei em casa com lágrimas a escorrerem me pela cara, simplesmente à espera de alguém familiar, alguém importante, mas rapidamente me apercebi que estava no chão do meu quarto sozinha.
    Recompus-me, levantei-me, limpei as lágrimas e lavei cada espaço do meu corpo o que pareceu uma eternidade. Vesti-me e prometi a mim mesma que nunca mais ia pensar naquele dia, que iria ser como se nunca tivesse acontecido. Aos 16 anos tentaram violar-me e eu nada disse.



    Como em todos os acontecimentos, existem consequências, e este não foi excepção. Fingir que não aconteceu em nada resultou. O sentimento de nojo de mim própria começou a invadir o meu pensamento.   Depois veio a constante insegurança, insegurança de andar na rua, de me aproximar de alguém desconhecido, até que por fim veio todos os sentimentos de culpa, as noites em claro, os pesadelos, a estranha sensação de repetição, e a destruição da minha própria confiança.
    Anos se passaram e os "sintomas" permaneceram. Levando cada vez mais um bocadinho de mim sem eu notar.
 
    Hoje as insónias voltaram, o sentimento de lixo voltou, e a única coisa que mudou, é que agora poderia voltar a acontecer tudo novamente, que eu iria manter me indiferente, pois hoje não sou mais do que uma mente vazia e sem valorização"