"Aos 16 anos, ele aproximou-se sem ninguém se aperceber. Quando ninguém olhava,
encostou-me à parede e sem me dar tempo de reagir tapou-me a boca com a sua mão
grande e envelhecida, e olhou-me nos olhos.
Senti o seu olhar como se de uma
chapada se tratasse, de tão ameaçador e sombrio. Devagar, começou a descer a sua
outra mão, enquanto me pressionava cada vez mais contra a parede com o seu corpo
rigido. Desceu devagar até chegar ao fundo do meu vestido, sem nunca parar de me
tocar, e com uma calma impressionante começou a subir outra vez a mão, mas desta
vez o meu vestido acompanhava-a. Após momentos de choque, de paralezia total,
debatia-me com todas as minhas forças contra ele, mas parecia que nenhum efeito
tinha, ele continuava ali e eu continuava impotente entre ele e a parede. A sua
mão a subir, a tocar na minha pele, a sua respiração ofegante nos meus ouvidos,
o seu olhar de posse e desejo desenfreado. Sinto cada centímetro que ele
percorreu como se tivesse sido ontem, o seu cheiro, o seu olhar, o sentimento de
nojo, de impotência e finalmente de desistência e conformidade...
Mas, quando
ele pensou que já nada ia tentar, aliviou a pressão em mim enquanto descia-a o
fecho das calças e retirava o seu pénis teso, debati-me contra ele com tudo o
que ainda me restava, e consegui finalmente ficar em liberdade.
Corri, e
nunca olhei para trás, com medo que ele pudesse estar lá e pudesse me voltar a
dominar. Entrei em casa com lágrimas a escorrerem me pela cara, simplesmente à
espera de alguém familiar, alguém importante, mas rapidamente me apercebi que
estava no chão do meu quarto sozinha.
Recompus-me, levantei-me, limpei as
lágrimas e lavei cada espaço do meu corpo o que pareceu uma eternidade. Vesti-me
e prometi a mim mesma que nunca mais ia pensar naquele dia, que iria ser como se
nunca tivesse acontecido. Aos 16 anos tentaram violar-me e eu nada disse.
Como em todos os acontecimentos, existem consequências, e este não foi excepção.
Fingir que não aconteceu em nada resultou. O sentimento de nojo de mim própria
começou a invadir o meu pensamento. Depois veio a constante insegurança,
insegurança de andar na rua, de me aproximar de alguém desconhecido, até que por
fim veio todos os sentimentos de culpa, as noites em claro, os pesadelos, a
estranha sensação de repetição, e a destruição da minha própria
confiança.
Anos se passaram e os "sintomas" permaneceram. Levando cada vez
mais um bocadinho de mim sem eu notar.
Hoje as insónias voltaram, o sentimento de lixo voltou, e a única
coisa que mudou, é que agora poderia voltar a acontecer tudo novamente, que eu
iria manter me indiferente, pois hoje não sou mais do que uma mente vazia e sem
valorização"
